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Cloud: Risco ou Benefício?

CIOs de empresas de diferentes segmentos falam sobre prós e contras do uso da nuvem

Stela Lachtermacher e Ana Luiza Mahlmeister,especial para LogicalisNow

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Foco de dúvida e de muito questionamento por parte dos líderes de TI, a computação em nuvem é hoje uma realidade, mesmo para aqueles mais céticos. “Cloud é algo inexorável”, avalia Mauro Negrete, diretor de operações e desenvolvimento da unidade de financiamento da B3, empresa fruto da fusão da BM&F Bovespa com a Cetip que atua na área de infraestrutura de mercado financeiro. “Costumo fazer uma analogia com o que aconteceu há alguns anos com os sistemas de gestão empresarial (ERPs) e acredito que as empresas vão adotar a nuvem cada vez mais para não depender de infraestrutura própria. A ideia é compartilhar e poder se concentrar mais na criação de valor para o negócio”, completa. A unidade liderada por Negrete é responsável pelo financiamento de imóveis e veículos atuando junto às financeiras e aos bancos.

A prova de sua crença na tecnologia foi a decisão de utilizar cloud em toda a operação da unidade. O “go live” do projeto aconteceu no último dia 1º de agosto, algo inovador em um ambiente regulado como o que a B3 atua. A solução adotada permite a total personalização para atender às necessidades de cada cliente, utiliza nuvem privada, e é protegida por um sistema de criptografia, atendendo às questões regulatórias. Até então, a empresa usava a nuvem exclusivamente para correio eletrônico e aplicativos, “o que há algum tempo também era impensável”, ressalta.

“Nível de maturidade ainda é baixo, mas cloud é algo inexorável como aconteceu com os ERPs.”

Mauro Negrete, diretor de Operações da B3

Para Negrete, o nível de maturidade da tecnologia ainda é baixo. Alguns segmentos já permitem a adoção, como o varejo, mas há outros em que é preciso evoluir, como é o caso de negócios financeiros. “O próprio regulador precisa entender os princípios”. Ele cita também a segurança como um aspecto que deve avançar. “Mas é uma questão de tempo para que as empresas adotem cada vez mais modelos de nuvem. É um caminho sem volta”, projeta.

A superintendente-executiva de TI da rede de hospitais BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Lílian Quintal Hoffmann, tem opinião semelhante. Ela vê inúmeras vantagens na adoção da computação em nuvem, mas não deixa de ressaltar uma dificuldade: o pós-venda. “Do ponto de vista técnico, o uso de cloud hoje é bem interessante sob vários aspectos, mas do ponto de vista do serviço, ainda há muito o que melhorar por parte dos fornecedores”, afirma.

“Custo e segurança são vantajosos, mas o pós venda ainda é um obstáculo”

Lílian Hoffmann, superintendente-executiva de TI da BP

A questão da segurança, na visão de Lílian, não é exclusividade dos serviços em cloud: pode ser um problema tanto para as informações que estão fora da empresa quanto para aquelas que estão dentro. “Eu, particularmente, acredito que a segurança em cloud é até maior [do que de um data center próprio”, diz. Ela também comenta que a conectividade com a nuvem pode falhar “assim como pode haver problema com um cabo interno”.
Na avaliação dela, este e outros pontos começam a ser enxergados pela área de saúde e, apesar da forte questão cultural, já se considera com mais segurança os benefícios da alta disponibilidade oferecida pela nuvem.

Outros motivadores apontados pela executiva são a renovação tecnológica, cujos investimentos acabam sendo partilhados; a escalabilidade, que garante a possibilidade de crescimento quando necessário, e o próprio custo. “Se colocarmos na ponta do lápis, pode-se verificar que os custos são menores considerando todos os investimentos que têm de ser feitos em infraestrutura”.

“Cloud acaba sendo um casamento de longo prazo”

Ítalo Flammia, diretor de TI da Porto Seguro

Além do correio eletrônico, a BP tem os exames dos pacientes em sistema de redundância na nuvem, para acesso da equipe médica a qualquer momento, e uma aplicação de relacionamento dos hospitais com as operadoras de planos de saúde para troca de informações seguindo a regulamentação da ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar.

Na Porto Seguro, diversos processos já estão em nuvem híbrida, parte pública e parte privada, como o sistema de RH, correio eletrônico e outros aplicativos, além de diversos processos de negócio que funcionam em cloud em regime de contingência. A empresa possui também um data center interno, sendo que para o usuário o uso da nuvem ou do ambiente interno é transparente.

O diretor de TI da Porto, Ítalo Flammia, acredita que a tecnologia já está bem madura, mas concorda com Lílian, da BP, quanto à necessidade de ajustes na oferta. Um dos pontos destacados pelo executivo são os acordos de nível de serviço (SLA). “Devem ser montados serviços sob demanda, respeitando a especificidade de cada cliente”, defende.

Outro desafio, na opinião de Flammia, é a mudança de uma plataforma para outra, que, em sua opinião, ainda é um processo extremamente complexo, assim como a troca do fornecedor de serviço. “Acaba sendo um casamento de longo prazo”, explica. Entre as vantagens do modelo de nuvem, ele destaca a disponibilidade. “Criamos uma espécie de tubo com nosso fornecedor e quando há qualquer oscilação de demanda o serviço entra em operação quase que automaticamente, de acordo com nossa contratação”. Entre prós e contras, o fato é que a adoção da nuvem é uma das prioridades dos gestores de tecnologia.

INTEGRADORES DESENVOLVEM NOVAS HABILIDADES PARA ATENDER NOVOS PERFIS DE CLIENTES

O chamado “cloud broker” e aqueles conhecidos como Cloud Service Manager (CSM) orquestram o ambiente e os contratos

Se depender dos fornecedores de tecnologia, a computação em nuvem já está madura, com ofertas cada vez maiores e mais complexas. Do lado dos clientes, os benefícios de migrar a carga de processamento para esse ambiente ficaram mais claros, fazendo com que as empresas de todos os portes dobrem a aposta na “cloud computing”. Estudo da IDC aponta que a adoção da nuvem é uma das maiores prioridades dos gestores de tecnologia, sinalizando um crescimento superior a 20% ao ano no Brasil até o final da década.

Os dois modelos de negócio, a nuvem pública e a privada, estão presentes nas empresas de forma equitativa, explica Pietro Delai, gerente de consultoria e pesquisa de Infraestrutura e Telecom da IDC Brasil. Em valores, a nuvem pública representa um pouco mais de 50% dos negócios, puxada pela adoção de software como serviço (SaaS). Em quantidade, os contratos de infraestrutura como serviço (IaaS) superam os demais, diz Delai.

Com tantos modelos de negócio disponíveis, as empresas buscam ajuda de especialistas para definirem suas arquiteturas e monitorarem o ambiente. Não basta combinar a nuvem pública e privada, adotando o modelo híbrido. É necessário avaliar os múltiplos fornecedores, cada um deles especializado em uma ponta do negócio, pesar o que faz sentido manter internamente, e depois orquestrar todo esse ambiente e os contratos, que podem ser em dólar ou reais.

As ofertas dos fornecedores, por serem amplas e complexas, fez surgir o chamado “cloud broker” além de integradores conhecidos como Cloud Service Managers (CSMs). No primeiro caso, são intermediários que representam e negociam com os provedores de nuvem, enquanto no segundo são empresas especializadas em serviços de conectividade, manutenção, segurança e orquestração. “O regime de multicloud demanda monitoração interna e externa das aplicações que rodam em outros provedores”, explica Delai. Esses facilitadores, seja o “cloud broker” ou o CSM, podem ajudar na escolha do provedor e avaliar a tarifação dos serviços, cobrados em dólares ou reais, além de arbitrar contratos.

Em um comércio eletrônico, com processamento sazonal e períodos de picos de vendas, é comum a empresa terceirizar várias plataformas. O cadastro dos usuários pode estar em um provedor externo e as telas das promoções em outro, mantendo internamente apenas o banco de dados de pedidos. Se algo der errado em algum desses “pedaços”, os pedidos não são finalizados e a empresa deixa de vender. “Um dos papeis do CSM é checar as interfaces dos ambientes, identificar o problema e onde agir”, ressalta Delai.

Com o aumento da complexidade e novos serviços rodando em nuvem, é necessário priorizar a visibilidade do ambiente para identificar problemas que afetam o desempenho, a experiência do usuário e as estratégias de negócios, aponta o diretor da Deloitte, Fabio Pereira.

Entre os motivadores da adoção do ambiente de nuvem, Pereira ressalta a possibilidade do consumo flexível das aplicações e o pagamento apenas do que se usa, em vez de ter de investir em toda a infraestrutura, contratando apenas o necessário para a operação. Isso permite à empresa criar “micro serviços” e experimentar aplicações sob demanda, sem comprometer os recursos computacionais ou pagar mais por isso. “Uma empresa mais ágil, focada na sua especialidade, reduz custos, porque ao migrar o processamento para a nuvem, pode redesenhar arquiteturas e transformar seus modelos de negócio”, explica Pereira.