Ângelo Fígaro, CIO da Renault-Nissan, fala sobre as iniciativas da empresa em busca da transformação digital de seus negócios e da satisfação dos clientes

Thais Aline Cerioni

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“Hoje, inovar é uma forma de sobrevivência”. Assim Angelo Fígaro, CIO da Renault-Nissan para a América Latina, explica os recentes investimentos da empresa em novas tecnologias. Entre as dezenas de provas de conceito realizadas, aplicações de internet das coisas, impressão 3D, realidade virtual e realidade aumentada buscam dar mais agilidade aos processos e melhorar o dia a dia das áreas de negócios. Em entrevista à Logicalis Now, o executivo fala sobre a importância da tecnologia para o futuro dos negócios da montadora, e a representatividade da TI local dentro do grupo.

“Temos um olho na tecnologia e outro no negócio”

LogicalisNow – O que é transformação digital para a Renault-Nissan?

Ângelo Fígaro – Transformação digital realmente é um tema bastante polêmico, porque cada pessoa dá um significado. O que nós, da Renault-Nissan, estamos procurando hoje é trazer uma melhor experiência para o usuário final e, ao mesmo tempo, otimizar os processos, ganhar eficiência e, por que não, tentar imaginar novos modelos inspirados em empresas nativamente digitais como Uber, Airbnb, etc.. Eu tenho incentivado bastante o meu pessoal a analisar novas tecnologias e novas tendências. Eu até brinco, temos que ter um olho na tecnologia e o outro olho no processo de negócios. Temos que trazer novas tecnologias para ajudar nosso usuário no dia a dia, para que ele seja mais eficiente, para que automatize tarefas. Eu acho que a tecnologia pode ser uma grande alavanca competitiva para a Renault e para as indústrias de forma geral. Nesse contexto, temos feito muitas provas de conceito para entender o que a tecnologia pode trazer para cá de uma forma ágil.

LN – Como é feita a gestão da inovação?

AF – Há cerca de quatro anos, nós lançamos um programa interno de TI voltado à inovação, o “Innovation”. Graças a esse programa, as pessoas podem colocar suas ideias no nosso portal e, de certa forma, empreender aqui dentro. O último ano, 2016, foi um marco porque fizemos 64 provas de conceito com rentabilidade bastante interessante para empresa.

LN – Vocês já têm resultados desses investimentos em inovação?

AF – Um dos objetivos corporativos é melhorar nossa eficiência produtiva. Cada minuto da fábrica parada é dinheiro potencialmente que a gente está deixando de trazer. Então, um dos projetos é para manutenção preditiva. Como é que eu consigo prever ou antever quando as nossas máquinas precisam de algum tipo de cuidado. A gente acredita bastante na internet das coisas. Nós temos uma série de testes e estudos do carro “comunicante”, ou seja, um carro que se comunica com o ecossistema. Estamos tentando trabalhar bastante também com realidade aumentada e virtual, que também são outras tecnologias bastante interessantes. Em algumas provas de conceito, aliamos IoT e realidade aumentada. Por exemplo, estou na frente de uma máquina, com um tablet, focalizando na máquina e o tablet diz, via realidade aumentada, como eu faço para fazer manutenção, ao mesmo tempo em que estou vendo os sensores que tem naquela máquina, como a temperatura, a pressão. Então já estamos começando a fazer fusão de tecnologias, para tentar melhorar a eficiência do profissional no nosso campo. Outra coisa importante, que inclusive fomos o percursor na Renault em nível mundial, é taguear os carros com a tecnologia RFID para detectar o movimento dos carros em todo o circuito, fazendo automação do processo. Isso está sendo bastante interessante, e estamos servindo de inspiração global nessa aplicação da tecnologia.

“Todo mundo tem ideias, mas temos de fazer com que elas se materializem”

LN – Vocês têm um espaço físico dedicado à inovação dentro da área de TI. Me conta um pouco mais sobre isso.

AF – Nós tínhamos uma sala de reunião e transformamos no Innovation Lab, um espaço bem humilde onde colocamos alguns equipamentos com o objetivo de testar tecnologias, criar protótipos, etc. Inicialmente, queríamos entender melhor as impressoras 3D. Hoje, temos três impressoras com o objetivo de prototipar peças para produção e mesmo algumas peças internas. Hoje, somos um fornecedor interno de algumas peças usadas durante a fabricação. A dinâmica e agilidade que fazer essas peças dentro de casa deu para a engenharia foram enormes. Uma das peças que foi produzida aqui demorava 45 dias, nós conseguimos fazer em 48 horas. Um outro exemplo foi que usamos um Raspberry para entregar conteúdo nas televisões em toda a fábrica, substituindo um PC que era conectado aos televisores Então, com o Raspberry, que custa barato, e um software que foi desenvolvido pela equipe, nós conseguimos recuperar os conteúdos que a comunicação coloca à disposição via rede e transmitir para todas as telas ao mesmo tempo. Também estamos começando a usar telas 3D para colaboração entre sites, ou seja, a [área de] engenharia, hoje, está no Brasil, na Argentina e na Colômbia consegue colaborar usando tecnologia. Finalmente, temos cerca de 15 iniciativas de realidade virtual e aumentada, tanto na fabricação quanto para a formação de recursos humanos. É uma tecnologia que tem agradado bastante e tem trazido bastante benefício para as pessoas aqui dentro.

LN – E quem usa esse laboratório?

AF – Muitas pessoas que vêm aqui, porque não é um laboratório exclusivamente para a área de TI, apesar de a gente usar a maior parte do tempo. Além disso, usamos também para ministrar cursos. Muita gente tem curiosidade em saber o que IoT, o que é um Arduino. Então, junto com parceiros, fazemos cursos curtos para ensinar um pouco mais e tirar as dúvidas das pessoas.

LN – Como funciona esse impulso à inovação? Os funcionários podem ir ao laboratório a qualquer momento, podem sugerir ideias?

AF – Temos um programa de inovação e incentivamos o colaborador até a implementação. Porque todo mundo tem um monte de ideias, mas temos que fazer com que elas se materializassem. Não dedicamos ninguém especificamente para a inovação, as pessoas se dedicam nos tempos vagos. A prioridade de cada um deve ser feita antes, mas a equipe se sente valorizada, dedica tempo, gosta da iniciativa e vem produzir um pouco mais de forma distinta, diferente, em um ambiente mais lúdico.

LN – Vocês enfrentam algum tipo de desafio, alguma barreira cultural, para a inovação?

AF – De forma geral, o ser humano é resistente a mudanças. Por isso, precisamos ser bem assertivos na forma de comunicar e avaliar o impacto que isso pode ter no dia a dia das pessoas. Muitas vezes, a primeira coisa que se pensa é “vou perder meu emprego”. Então, como mostrar que mudar a forma como ela interage pode ser positivo, fazendo uma atividade menos mecânica e mais intelectual, pensando como a gente pode melhorar o processo dentro do dia a dia da pessoa. A questão cultural é uma dificuldade, mas a busca pela competitividade é importante, e quem não inovar ou não buscar um diferencial competitivo, vai estar fora do mercado. Hoje, inovar é uma forma de sobrevivência. A gente não pode mais continuar como sempre, temos que pensar outros métodos, outras formas, tentar ser percursor, e ter um time-to-market capaz de seguir de perto outras tendências.

“Estamos sendo bastante ouvidos globalmente”

LN – Como é a relação da TI da América Latina com a TI global da Renault-Nissan? Quanto vocês têm influenciado globalmente?

AF – Nos últimos anos, estamos sendo bastante ouvidos globalmente. Normalmente, todas as decisões eram tomadas em nível global, e a gente fazia praticamente só aplicações aqui. Porém, antes da crise, o Brasil era o segundo maior mercado da Renault do mundo, então isso fez com que muitas pessoas olhassem para cá e vissem o que estava acontecendo aqui, porque o potencial é muito grande para a empresa. Com isso, a gente conseguiu ser mais ouvido. A gente consegue colaborar e contribuir mais com as estratégias globais. Isso está acontecendo cada vez mais. Realidade aumentada tem grandes chances de ser um exemplo de “exportação”, porque os nossos testes são bastante interessantes e a empresa de forma geral gostou. XXX também é outro exemplo que vai ser estendido, primeiro na América Latina e depois no resto do mundo. São dois exemplos em que a gente está bastante na frente, contribuindo para ser mais competitivos.

LN – As áreas de negócios já demandam mesmo tecnologia? Existe isso no dia a dia?

AF – Existe um pouco, mas tudo depende do nível de maturidade das pessoas. Algumas estão mais antenadas, outras menos, mas todas estão abertas para que a gente proponha alguma coisa que melhore a sua vida. Assim, uma capacidade que temos que desenvolver cada vez mais é a comunicação. Porque nós, sempre muito técnicos, além de conversar com as maquinas no dia a dia, temos que saber nos relacionar mais com as pessoas, construindo parceiras para trazer solução.