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Plataformas começam a ganhar escala

É o que propõe o blockchain, tecnologia que deve apresentar suas primeiras aplicações práticas neste ano

Ana Luiza Mahlmeister, especial para LogicalisNow

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O blockchain se difundiu no mercado financeiro e está chegando aos demais setores. A adoção não é automática, pois é necessário fazer a “lição de casa”, ou seja, sua adoção passa pela transformação digital das empresas. Os fornecedores de tecnologia se movimentam para atender à demanda, criando ou adaptando plataformas para o novo ambiente. Muito associado ao Bitcoin, o blockchain é, na verdade, a tecnologia que possibilita a existência da criptomoeda, que usa a cadeia de blocos para movimentar transações de valores mundialmente. “Mas o conceito está se espalhando rapidamente para outras aplicações, como agricultura, logística, saúde e varejo”, avalia Ailtom Nascimento, vice-presidente da Stefanini.

O blockchain é mais indicado para processos compartilhados, mas não se adapta a qualquer aplicação. Para reconhecer ambientes nos quais é viável, deve-se tentar responder a pelo menos quatro questões-chave: as múltiplas partes compartilham dados? As múltiplas partes atualizam os dados? Existe um requisito para a verificação? Os intermediários podem ser eliminados para reduzir custos e complexidade? “Se a resposta for sim a todas essas perguntas, então há um grande potencial para a aplicação da tecnologia”, explica Gustavo Paro, especialista em blockchain na Microsoft Brasil.

Para padronizar a plataforma foram formados consórcios. Entre eles está a Ethereum, que tem apoio da Microsoft; a Hyperledger, uma iniciativa da IBM; e a Corda, nascida dentro do Consórcio R3 – que reúne mais de 50 instituições financeiras em nível global –, e que caminha para ser incorporada ao Projeto Hyperledger.

Menor custo

Além da segurança e da facilidade de uso, o blockchain ainda se diferencia pelo custo de desenvolvimento inferior ao das soluções tradicionais. “Em um futuro próximo, a integração dessa tecnologia com as demais será direta, facilitando o desenvolvimento de novas funções que vão muito além da área financeira”, aponta Nascimento, da Stefanini. Um dos maiores impactos da plataforma é a desintermediação. Companhias de um mesmo segmento estarão integradas para fazer transações diretas. “Entre os bancos, por exemplo, não é mais necessário pagar uma rede interbancária internacional, como a Swift, para troca de dados”, aponta Paschoal Baptista, sócio-diretor da Deloitte.

Para Regina Helena Frasson Nori, client technical advisor da IBM, a criação de consórcios facilita a padronização e atrai a indústria. A IBM está participando de um projetos na área de consumo e varejo, chamado de IBM Food Trust, que reúne dez empresas globais como o Wal-Mart, Kroger, Unilever e Nestlé, entre outras. No Brasil, a companhia desenvolveu o “Food Tracking”, com a gigante de alimentos BRF e a rede varejista Carrefour, para a rastreabilidade de produtos. “Primeiro entendemos, junto com o cliente, qual o problema a ser solucionado e a cadeia de valor em que ele se encontra, e por meio de uma sessão de ‘design thinking’ é definida a inserção do blockchain no processo”, explica Regina Helena.

A Blockchain Plataform da IBM é um serviço integrado à nuvem e ao conceito Hyperledger Fabric, hospedado pelo consórcio The Linux Foundation. “Com arquitetura modular, é uma base para o desenvolvimento de aplicativos e serviços, a configuração de contratos inteligentes, a integração de sistemas e a revisão de processos”, afirma Regina Helena. A Microsoft, que apoia o consórcio Enterprise Ethereum Alliance, oferece o Blockchain como Serviço (BaaS) em seu sistema de nuvem Azure. “Damos suporte a outras 18 aplicações relacionadas à tecnologia com ferramentas que permitem a adaptação do blockchain às aplicações dos clientes”, destaca Gustavo Paro. Outra estratégia da companhia é a oferta de metodologias para ajudar as empresas na migração por meio de provas de conceito em blockchain, com o Projeto Bletchley. Uma camada de serviços de identidade, gestão, privacidade, criptografia e sistemas analíticos conectam as novas aplicações ao ambiente de produção como o CRM e o ERP, ferramentas de produtividade e colaboração, entre outros.

Transferência de valores

A necessidade de transparência no relacionamento entre os parceiros de negócios, a visibilidade da cadeia de valor, a confiança e a rastreabilidade de produtos e documentos têm atraído o interesse dos clientes na tecnologia, ressalta Jaime Müller, COO da SAP Brasil. Para atender a essa demanda, a empresa lançou, em maio de 2017, a plataforma SAP Leonardo. O SAP HANA, ERP em nuvem da companhia, também possui funcionalidades baseadas em blockchain e que podem ser utilizadas em conjunto com aplicações já existentes. No mundo do blockchain, as plataformas se integram de forma colaborativa, e as soluções dos diversos fornecedores, com padrões abertos, formam marketplaces. Bancos se uniram para, através da plataforma, estabelecer um padrão único de certificação que evita o envio de boletos falsos. “Um excelente exemplo de eficiência operacional compartilhada que impacta positivamente nos custos operacionais dos bancos envolvidos, além de gerar um importante selo de segurança ao cliente final”, completa Müller.

Outra área com grande potencial é a saúde. O blockchain poderia reunir cadastros e informações sobre exames, prontuários, medicamentos e imagens compartilhadas entre as várias instituições de saúde. “No caso de um acidente em uma viagem, o médico poderia acessar o histórico daquele paciente, disponível na rede blockchain dos hospitais, facilitando o atendimento”, afirma Baptista, da Deloitte. O governo dos Estados Unidos está incentivando o uso de blockchain na saúde como forma de obter mais transparência, eliminar fraudes em reembolsos e ter mais transparência do sistema.

O blockchain também promete “organizar” a internet das coisas. Os sensores conectados a objetos terão na plataforma uma representação digital ou um registro, permitindo o rastreamento. O mercado de peças de avião usadas, por exemplo, que tem grande risco de falsificação, ganha com a nova tecnologia. Em uma plataforma segura, aquela peça estará registrada digitalmente como parte de um avião completo. Quanto ele for desmontado e as peças vendidas, será possível rastrear aquele objeto e verificar sua origem, validando a transação de venda. “O blockchain adiciona segurança à cadeia, viabiliza aplicações que antes não eram possíveis, tira a intermediação e gera oportunidades de negócio”, pontua Baptista.

Os registros no blockchain não são atualizáveis, assim não há como alterar transações realizadas, permitindo apenas inclusões com um único esquema lógico (virtual) global, que é armazenado por meio de várias cópias físicas distribuídas. A principal diferença entre o blockchain público e o privado é o mecanismo de consenso. No público, os usuários não se conhecem, portanto, o nível de confiança é baixo, necessitando uma sobrecarga computacional maior. Assim, a verificação ou validação de cada transação é bastante alta e demorada. Já na conexão privada, a confiança é maior, pois é baseada na permissão de acesso.

É possível fazer uso de algoritmos compartilhados mais simples e rápidos, explica Wellington Lordelo, gerente de solution marketing da Equinix. Como resultado, em vez de algumas transações por segundo, é possível fazer milhares delas. Em blockchains privados, os registros das transações podem ser criptografados e estão disponíveis apenas para as partes autorizadas, satisfazendo melhor os requisitos de privacidade dos participantes. “Ficar fora dessa rede pode significar, em um futuro próximo, sair do mercado”, ressalta Lordelo.