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Uma nova forma de fazer negócios

É o que propõe o blockchain, tecnologia que deve apresentar suas primeiras aplicações práticas neste ano

Stela Lachtermacher, especial para LogicalisNow

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Blockchain. Traduzida ao pé da letra, seria uma simples “cadeia de blocos”. Mas esta que está sendo considerada a tecnologia que vai causar o maior impacto desde o surgimento da web vai muito além disso, e já movimenta as maiores empresas do mundo em torno de provas de conceito, seja no setor financeiro, de indústria, comércio ou prestação de serviço.

O blockchain muda a maneira de fazer negócios a partir do registro de transações, encadeada e compartilhada simultaneamente entre os envolvidos. O registro é feito em blocos de informações criptografadas, o que garante maior segurança, transparência, confiabilidade e agilidade; além disso, promove a redução de custos, uma vez que o sistema pode eliminar intermediários cuja função seria referendar etapas do processo, como governo, cartórios e bancos.

Para Don Tapscott, um dos principais estudiosos do tema e autor do livro Blockchain Revolution, a tecnologia pode promover a redução dos custos com administração de contratos, auditorias e despesas legais, entre outros, tornando disponíveis serviços antes inacessíveis para grande parte da população em todo o mundo. “O mercado financeiro poderá incluir bilhões de pessoas hoje desassistidas pelos bancos devido aos custos de processamento de pequenos valores”, afirma. E acrescenta que a inviolabilidade da tecnologia dispensa intermediários, fazendo do blockchain o “protocolo da confiança”.

“Uma vez que você registra aquela operação ela não pode ser alterada e isso dá credibilidade ao processo”

André Cunha, da Ewally

O IDC, empresa de inteligência de mercado, prevê que, em 2018, serão investidos US$ 2,1 bilhões em blockchain, valor que representa mais do que o dobro dos US$ 945 milhões do ano passado. O setor financeiro, um dos mais afetados pela nova tecnologia, lidera os investimentos, com US$ 754 milhões; seguido das áreas de distribuição e serviços, com US$ 510 milhões, e de produção e recursos, com US$ 448 milhões. Estimativas do instituto de pesquisa apontam para o crescimento contínuo dos investimentos na tecnologia até 2021, quando deverão chegar a US $ 9,2 bilhões.

Aplicações práticas

O IDC, empresa de inteligência de mercado, prevê que, em 2018, serão investidos

US$ 2,1bilhões em blockchain,

valor que representa mais do que o dobro dos US$ 945 milhões do ano passado.

em 2025,

10%

do PIB serão armazenados em tecnologias relacionadas ao blockchain

O setor financeiro vem capitaneando as experiências com blockchain, e a Febraban, que desde o ano passado realiza provas de conceito com diferentes plataformas, promete para este ano um projeto-piloto de forma a aproveitar todo o potencial da tecnologia. “Em 2018, os bancos terão aplicações para serem testadas com dados reais”, adianta Adilson Fernandez da Conceição, coordenador do grupo técnico de blockchain da instituição.

O R3, consórcio que reúne instituições financeiras de todo o mundo além de Microsoft, Oracle e Intel, vem, desde abril de 2016, estudando a aplicabilidade do blockchain. O Itaú Unibanco, que faz parte do grupo, lançou em janeiro deste ano uma aplicação voltada para o controle de margens. A iniciativa, denominada Blockchain Collateral e baseada na plataforma Corda, tem por objetivo proporcionar mais agilidade, transparência e rastreabilidade ao processo de chamada de margem (solicitação e aporte de garantias de derivativos de balcão). Nas chamadas de margem, os bancos negociam receber garantias, reduzindo riscos de crédito para proteção contra variações desfavoráveis do mercado. “Estamos certos de que essa inovação trará ganhos reais de eficiência para o setor como um todo”, afirma o diretor de Operações do Itaú Unibanco, Cristiano Cagne. “É um início promissor.”

Segundo Adilson Conceição, da Febraban, os testes permitiram avaliar a capacidade das plataformas e as diferenças entre elas, checar se funcionam com novos produtos e também comprovaram a capacidade de os bancos operarem em regime colaborativo com a garantia de imutabilidade dos dados compartilhados, preservação da privacidade e rastreabilidade das informações. Depois de testar a plataforma Corda, o grupo de trabalho realizou testes com Hyperledger para a construção de uma plataforma blockchain de código aberto. Para Conceição, os protótipos mostraram que é possível ter uma estrutura de dados diferente do modelo centralizado que existe hoje.

Como funciona o Blockchain

  • CONTRATOS INTELIGENTES

  • CRIPTOMOEDA

  • OUTROS REGISTROS

  • TRANSPARÊNCIA E RASTREAMENTO

  • SIMPLICIDADE E RAPIDEZ

  • REDUÇÃO DE CUSTOS

  • MAIOR CONFIANÇA

Onde está o Blockchain

Para o diretor de transformação digital da Caixa, Adriano Assis, o blockchain é uma tecnologia que em breve fará parte do dia a dia das pessoas, de forma transparente e independente mente do seu conhecimento técnico. A Caixa participa de iniciativas colaborativas com outras instituições financeiras para testar a tecnologia. Uma delas foi o desenvolvimento de um protótipo de transferência de valores entre pessoas utilizando uma rede privada de blockchain. “Em breve, poderemos realizar um piloto em ambiente controlado para validar as funcionalidades dessa tecnologia”, afirma. De acordo com Assis, o experimento está sendo desenvolvido entre instituições financeiras participantes, integrado com as redes sociais e aberto a novos colaboradores do setor financeiro. Ele explica que a solução é para movimentação financeira entre as pessoas (P2P) por meio de dispositivos móveis, aproveitando os contatos dos clientes. “A ideia é ofertar uma nova experiência, mais amigável e simples, para transações financeiras. Como se estivesse enviando uma mensagem na rede social, o cliente vai enviar um valor para o contato que ele escolher. Se o contato já tiver conta na Caixa ou nos demais bancos que participam do experimento, receberá o crédito imediatamente.” A interface da solução é adaptável a qualquer plataforma e os testes, iniciados no final do ano passado, serão ampliados neste ano para validar a tecnologia e definir novas estratégias.

Serviços sociais

O diretor da Caixa acredita que as possibilidades de uso dessa tecnologia prometem revolucionar o sistema financeiro, além de outros setores, como logística, garantias de titularidade, identidade, garantias de propriedade de bens e documentos, que afetam a vida do cidadão, empresas e governo. E, no caso específico da instituição, pode ser aplicada nos segmentos financeiro, habitacional, governamental, até em serviços sociais.

O blockchain vem sendo utilizado pela Ewally, empresa que promove a inclusão financeira de pessoas desbancarizadas e de microempresários. Os cerca de 30 mil clientes da Ewally utilizam um cartão próprio por meio do qual podem fazer todas as transações bancárias a custo zero ou com tarifas reduzidas. A empresa trabalha atualmente em um piloto baseado em blockchain, ainda sob sigilo, para pagamento de contas de consumo, como água e luz, e em um outro produto para a transferência internacional de valores. Segundo André Cunha, fundador e CEO da Ewally, entre as vantagens da tecnologia está o fato de as transações serem rastreáveis, auditáveis e imutáveis. “Uma vez que você registra aquela operação, ela não pode ser alterada, e isso dá credibilidade ao processo”, reforça.

Estudos do G-20 também chamam atenção para a possibilidade de formação de um sistema mais descentralizado e democrático, no qual todos possam participar de uma economia global baseada nos princípios de transparência, responsabilidade e abertura. O Grupo estuda o uso de blockchain em um consórcio de bancos centrais dos países membros para aumentar a eficiência do comércio internacional, e seus relatos mostram que a tecnologia desempenha um papel fundamental na construção de uma economia digital abrangente e transparente. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em 2025, 10% do PIB serão armazenados em tecnologias relacionadas ao blockchain. Para Italo Flammia, diretor da área digital e de inovação da Porto Seguro, o mundo corporativo está estudando a tecnologia (para que serve, como funciona, como se difere do que existe) e avaliando a aplicação nos seus negócios. “Estamos num estágio muito inicial frente às oportunidades de transformação que essa tecnologia pode trazer. Blockchain vai impactar mais o mundo dos negócios nos próximos dez anos do que a internet fez até hoje”, diz o executivo.

A Nasdaq, que controla o mercado de ações voltado a empresas de tecnologia, se juntou a seis startups que já usaram blockchain para desenvolver o LINQ, uma interface que busca facilitar o investimento em novas empresas na fase anterior à do IPO, que é a primeira oferta pública de ações. Se 2017 foi o ano em que os testes com blockchain se multiplicaram, neste ano espera-se que as provas de conceito e projetos-piloto se transformem em produtos que tragam a nova tecnologia para o dia a dia, beneficiando empresas e usuários, e elevando os negócios a um outro patamar.