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Artificial, porém real

Sistemas baseados em inteligência artificial já são realidade em vários setores, como atendimento ao cliente e melhoria de operações. E não se assuste se uma máquina também salvar sua vida

Luiza Dalmazo, especial para LogicalisNow

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“O principal benefício é que aumentamos a precisão e eliminamos a subjetividade humana da análise.”

Igor Chalfoune, sócio fundador da startup Tbit

Tirar proveito

A ordem dos 10 setores que mais podem se beneficiar do uso de técnicas de inteligência artificial, segundo a McKinsey

  • VIAGENS

  • TRANSPORTE E LOGÍSTICA

  • VAREJO

  • AUTOMOTIVO

  • ALTA TECNOLOGIA

  • ÓLEO E GÁS

  • QUÍMICO

  • MÍDIA E ENTRETENIMENTO

  • MATERIAIS BÁSICOS

  • AGRICULTURA

Varejo, transporte, turismo, indústria farmacêutica, óleo e gás. Esses são apenas alguns dos segmentos de mercado aptos a colher benefícios da inteligência artificial. Hoje, existem iniciativas sendo testadas, usadas ou planejadas em recrutamento de pessoas, no agronegócio, na saúde, no atendimento ao consumidor e muitas outras frentes. As modernas técnicas de IA têm o potencial de fornecer um valor adicional de 30% a 128% em relação aos métodos tradicionais de análise, segundo estudo da consultoria McKinsey publicado este ano. “Apesar de os primeiros casos estarem aparecendo, ainda estamos engatinhando na adoção dessa tecnologia”, diz Eduardo Endo, diretor acadêmico dos cursos de MBA da FIAP e mestre em inteligência artificial. Se definir o termo ainda causa estranheza, é hora de esclarecer: inteligência artificial (IA) é o nome dado à técnica de elaborar sistemas que simulem a capacidade humana de raciocinar, perceber, tomar decisões e resolver problemas.

A consultoria McKinsey, no estudo chamado “Notas sobre a fronteira da inteligência artificial: aplicações e o valor da aprendizagem profunda”, afirma que o uso de da tecnologia deve movimentar entre US$ 3,5 trilhões e US$ 5,8 trilhões ao ano no mundo, sem determinar um período específico. O número impressiona, mas faz sentido quando se avalia as possibilidades de uso. A consultoria coletou e analisou dados de casos em que a técnica é usada em 19 setores da indústria e em nove departamentos corporativos. A conclusão é que, dentro das empresas, os maiores beneficiados do uso aprofundado das redes neurais são setores que hoje dependem muito das análises tradicionais, como marketing, vendas e gestão de manufatura da cadeia de suprimentos. A inteligência artificial, segundo a McKinsey, pode gerar um valor adicional de US$ 2,6 trilhões e de US$ 2 trilhões em cada um desses segmentos, respectivamente.

Os usos mais comuns

As principais motivações para a adoção de sistemas baseados em inteligência artificial atualmente seguem cinco frentes

  • 1

    Melhorar a experiência de consumo

  • 2

    Aumentar a eficiência das operações de TI

  • 3

    Aprimorar a troca de serviços e ideias dentro das organizações

  • 4

    Motivar a adoção de novos sistemas pelos funcionários

  • 5

    Aperfeiçoar negócios operacionais

Fonte: Forrester

No entanto, é no setor de gestão de serviços ao cliente no varejo que está uma das aplicações baseadas em IA mais adotadas. Os softwares de chatbots – troca de mensagem realizada com robôs – se disseminam de forma impressionante; na ferramenta de mensagens da rede social Facebook, por exemplo, havia 33 mil chatbots em abril de 2017, contra 100 mil no ano seguinte. Na varejista Magazine Luiza, os robôs foram programados para acompanhar o atendimento de pós-venda para “aprender” o que ele pode dizer, e como deve fazer as interações. À medida que eles se aprimoram, a companhia coloca o equipamento para fazer o atendimento sozinho. O objetivo da empresa é criar um chatbot tão bom, que as pessoas nem percebam que falaram com robôs. As vantagens são mais qualidade e agilidade no atendimento ao cliente, já que o sistema “trabalha” todos os dias, por 24 horas. Se o consumidor tem pressa para agendar a manutenção de um eletrodoméstico ou reemitir uma nota fiscal, pode tranquilamente resolver a questão lidando com um bot. Hoje, quando o cliente faz um pedido pelo site do Magalu, consulta as informações sobre a compra no menu “seus pedidos” e, se precisar, interage com o software desenvolvido a partir de inteligência artificial para mudar informações do endereço de entrega, emitir a segunda via do boleto e acompanhar onde o produto está ou quando ele chega.

Equipamento reduz em 80% o tempo de análise, 70% o custo com mão-de-obra e em até 20% a devolução e necessidade de reprocessamento de sementes

Esse tipo de ferramenta ajuda a empresa a evitar despesas com mão-de-obra, considerando que menos pessoas precisem trabalhar no atendimento telefônico ou online. Tanto que a empresa de pesquisas e consultoria Forrester diz que a inteligência artificial vai permitir às organizações uma economia de 8 bilhões de dólares ao ano, a partir de 2022. “Em quatro anos, falaremos mais com os bots do que com os nossos cônjuges”, afirma a pesquisa.

Apesar de a frente de atendimento ao cliente ser líder atualmente no uso de IA, também estão surgindo aplicações inovadoras, em áreas pouco exploradas (e que, até hoje, eram famosas por inovarem pouco), como o agronegócio e o setor de construção. Com um sistema que combina inteligência artificial e big data, a startup catarinense ZeroDistrato tem ajudado as construtoras a reduzirem as perdas com clientes que adquiriam lançamentos imobiliários e “desistiam” do negócio, porque não conseguiram pagar as parcelas. Essa prática, conhecida como “distrato”, pode ser reduzida quando o sistema da companhia passou a notar padrões em quantidades colossais de dados. Em poucos segundos o software compara o perfil de compra do cliente e o formato da proposta apresentada com outros 500 mil contratos realizados no passado e com dados abertos que correspondem a mais de 30 caminhões cheios de papel. Assim, a startup consegue prever com três anos de antecedência quem vai distratar e, o melhor, acerta em 95% dos casos. “Isso tudo seria absolutamente impossível sem inteligência artificial”, diz Anderson Fagionato, CEO e fundador da Zero Distrato. O distrato é um pesadelo para incorporadoras, construtoras e imobiliárias, porque a compra de um imóvel na planta funciona como um custeio das despesas da obra. Por isso a empresa, que nasceu há seis meses, já conquistou seis clientes (como a Alphaville Urbanismo), e fatura R$ 40 mil ao mês.

No campo, as redes neurais estão sendo exploradas para resolver problemas em diversas frentes. Uma das maiores empresas agrícolas do mundo, a Monsanto – que recentemente se fundiu com a Bayer – investiu R$ 1 milhão para apoiar o negócio da Tbit, uma startup que usa inteligência artificial para avaliar a qualidade dos grãos. Até hoje, cada vez que um lote de sementes muda de “mãos”, passando do produtor para o armazenamento, exportação ou para quem vai plantá-las, aquele a assumir o produto contrata um analista para avaliar a qualidade das sementes. O equipamento da Tbit, semelhante àqueles pequenos scanners de malas do aeroporto, reduz em 80% o tempo de análise e liberação do lote, 70% no custo com mão-de-obra e em até 20% a devolução e necessidade de reprocessamento de lotes para tratamento industrial das sementes. “O principal benefício é que aumentamos a precisão e eliminamos a subjetividade humana da análise”, diz o sócio fundador da startup, Igor Chalfoun. Segundo ele, o software criado analisa 300 características do produto para dar o parecer, como cor, textura, forma e geometria. “Agora, estamos fazendo testes para aplicação do sistema no setor de manufatura, para análise de produtos como o sabão em pó”, conta.

Se apesar dos exemplos anteriores ainda houver receio sobre a confiabilidade das máquinas e sistemas que criam as chamadas redes neurais, o setor de saúde pode eliminar dúvidas salvando vidas. Está em testes no Hospital do Mandaqui, complexo hospitalar do Governo do Estado de São Paulo, localizado na capital paulista, um sistema de inteligência artificial capaz de encontrar lesões em tomografias cranianas, que representam quadros de acidente vascular cerebral (AVC). O robô demora cinco minutos para encontrar lesões e taxá-las como caso emergencial ou não. Além do tempo de interpretação, a tecnologia confere caráter de emergência quando percebe sangramentos e a radiografia não fica parada na fila de espera para análise do médico. O tempo desse tipo de diagnóstico diminuiu por volta de 36 minutos desde março, quando a IA entrou em funcionamento no Hospital. O robô foi desenvolvido pela startup israelense Aidoc, desenvolvedora do primeiro sistema baseado em inteligência artificial aprovado pela agência federal americana Food and Drug Administration (FDA), que regula o setor de suplementos alimentares e medicamentos. Segundo a Aidic, o sistema foi capaz de encontrar corretamente 92% dos casos de lesão.

É claro que a tecnologia ajuda a agilizar o trabalho, mas não dispensa os médicos – o que também não acontece no caso da análise do lote de sementes ou no atendimento ao cliente. A disseminação de sistemas baseados em inteligência artificial certamente vai provocar uma revolução no trabalho, transformar a forma como as empresas funcionam e possivelmente criar novas atribuições e cargos. Mas esse papo fica para a próxima.