Tecnologia promete revolucionar os transportes ao possibilitar viagens de algumas centenas de quilômetros em poucos minutos. E não é ficção científica.

Carlos Eduardo Valim, especial para a LogicalisNow

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Batizado como Gabriele, o italiano Bibop Gresta adotou o novo nome na juventude, quando ficou conhecido em seu país como rapper e apresentador da MTV. Logo descobriu sua vocação para os negócios, mas manteve o nome artístico. Assim, Bibop fundou empresas, a incubadora Digital Magics, que deu origem a mais de 70 startups, e se tornou o mais jovem diretor da Telecom Italia.

Agora, sua ambição é revolucionar os transportes em todo o mundo. O plano é o transporte de pessoas dentro de cápsulas. A ideia não é nova – já foi utilizada em filme de James Bond e em desenhos de Os Jetsons. Muito antes disso, na virada para o século 20, no momento em que os automóveis e metrôs eram uma novidade, esse tipo de transporte chegou até a entrar na disputa por ser um método de locomoção do (então) futuro. O pai dos foguetes espaciais, Robert Goddard, também pesquisou a tecnologia.

Acontece que, recentemente, o conceito ganhou uma nova vida. Em 2013, quando o empreendedor Elon Musk – entusiasta dos carros elétricos, das baterias para substituir a energia elétrica distribuída nas residências, e das viagens espaciais, por meio de suas empresas Tesla, SolarCity e SpaceX – escreveu um estudo sobre o assunto. Musk queria evitar que a Califórnia investisse US$ 68 bilhões num projeto de trem de alta velocidade, sendo que, segundo ele, cápsulas se movendo a vácuo em tubos poderiam levar cerca de 30 pessoas por vez, em 36 minutos, de Los Angeles a São Francisco, com um projeto de US$ 6 bilhões.

Como já estava dedicado a outras empreitadas, abriu suas conclusões sobre a tecnologia hyperloop, como a chamou, para que qualquer outro empresário a pudesse desenvolver. Um deles foi o cientista alemão Dirk Ahlborn, que convidou Bibop Gresta para criar a Hyperloop Transportation Technologies. O italiano se tornou, então, o embaixador desse conceito, e defende a revolução que essa tecnologia pode promover. A empresa foi declarada, na edição de 2018 do Fórum Econômico Mundial, uma Pioneira da Tecnologia.

“No futuro, se mover será agradável, acessível e sustentável”

LogicalisNow – Quando você conheceu a tecnologia hyperloop?

Bibop Gresta – Como muitos, eu fui imediatamente impactado pelo whitepaper original da SpaceX, quando foi publicado cinco anos atrás. Não muito tempo depois, encontrei o meu parceiro de negócios durante os estágios iniciais da formação do que se tornaria a Hyperloop Transportation Technologies. Depois de fazer due dilligence na empresa e na tecnologia, soube que queria estar envolvido com isso, porque me pareceu claro que é algo que vai mudar as regras da mobilidade.

LN – Como espera ajudar a desenvolver esse campo?

BG – Tenho muitos anos de experiência trabalhando com startups de tecnologia, tanto na Europa quantos nos EUA, mas a Hyperloop é um campo totalmente novo. Então, até agora, não existe ainda um “expert em hyperloop”. Porém, como estamos descobrindo, há um punhado de gente apaixonada por combinar as suas experiências, e esses esforços podem quebrar a barreira da ausência de um expert e desbravar novos caminhos.

LN – O quanto os transportes serão diferentes no futuro?

BG – Atualmente, os meios de transporte são terríveis. É estressante, caro e ruim para o meio ambiente. Temos uma visão de futuro em que o transporte será uma parte imperceptível das nossas vidas. Como resultado, no futuro, se mover será agradável, acessível e sustentável, estamos falando de coisa
de 20 ou 30 anos.

LN – Essa revolução está próxima?

BG – De muitas maneiras, ela já chegou. Empresas como Uber, Lyft, Tesla e outras estão transformando o mundo com o compartilhamento de carona e carros com direção autônoma. São coisas que pareciam estar num futuro distante há cinco ou dez anos.


LN – Que formas de transporte podem ser substituídas pelas cápsulas? Servirá mais para viagens curtas ou longas?

BG – O hyperloop se tornará uma alternativa mais atraente em relação a outros modais, não apenas devido à velocidade, mas principalmente por sua eficiência. Logo poderemos viajar dentro das cidades e entre cidades. Então, acredito que servirá para distâncias curtas e longas.

LN – Qual é a proposta de investimento e de retorno para o desenvolvimento da tecnologia?

BG – O custo de construção e manutenção do sistema é uma fração de alternativas como os trilhos. Por causa disso, o Hyperloop pode ser rentável dentro de 10 anos de operação. Estamos explorando modelos de monetização diferentes que possam garantir que o transporte seja acessível para todos.

LN – Essa tecnologia foi pensada já por muitos anos. Por que não avançou até agora?

BG – Houve muitas tentativas de se criarem tubos de viagens ao longo dos séculos, desde os anos 1800. Apenas nos últimos anos que o desenvolvimento de coisas como o nosso sistema de levitação magnética passiva patenteado, avanços em baterias e bombas de vácuo mais eficientes aconteceram. Então, o sistema completo ficou pronto para se justificar economicamente.

LN – Quais serão os maiores obstáculos para a tecnologia se popularizar?

BG – As complicações maiores estarão no arcabouço legal e regulatório. Mas tomamos o primeiro grande passo para resolver isso com um anúncio nesta semana, que o nosso sistema poderá ser certificado nos padrões mais altos de segurança e será completamente segurado.


LN – Que países podem avançar mais rapidamente?

BG – Vemos interesse de muitos países, em especial da China, Emirados Árabes Unidos e Ucrânia, com quem já assinamos acordos comerciais e já vamos partir para a construção. Os políticos, assim como a maior parte das pessoas, são curiosos e um pouco céticos, até que mostramos o sistema que nossos engenheiros montaram, e as oportunidades econômicas que podem trazer, de acordo com estudos de viabilidade.

LN – E o Brasil?

BG – Há uma grande oportunidade para a Hyperloop aqui. O País já é o local do nosso centro global de logística, onde criamos soluções que podem ser aproveitadas em todo o planeta. Além disso, o sistema de transporte modificaria o País. Imagine ser possível ir do Rio de Janeiro a São Paulo em alguns minutos, em vez de horas.

LN – Como o capitalismo do século XXI será diferente por conta de tantas inovações?

BG – Como percebemos ao longo da história, grandes mudanças em mobilidade são acompanhadas de grandes mudanças na sociedade, tanto em termos individuais quanto no nível econômico. Pense numa comutação entre Brasília e o Rio em menos tempo do que leva para tomar um café da manhã; ou visitar um amigo em Curitiba, saindo de São Paulo, apenas para jantar. Uma vez que cidades se tornarão próximas como bairros, vão libertar as pessoas para escolhas sobre onde viver, trabalhar e viajar.