Carlos Eduardo Valim, especial para a LogicalisNow

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Uma empresa originada a partir da visão de um jovem empreendedor chileno em 2015 virou notícia mundial no último mês de março. Ou melhor, uma não-empresa. Na mesma semana em que começava a operar no Brasil com salas alugadas nos escritórios de coworking da WeWork, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, a The Not Company, mais conhecida como NotCo, chamava a atenção por receber um aporte de US$ 30 milhões de investidores com o quilate de Jeff Bezos, o atual homem mais rico do mundo, fundador da Amazon.

Fruto da percepção de Matías Muchnick, estudante de finanças na universidade Harvard, de que a indústria alimentícia precisava ser reinventada desde a forma como desenvolve produtos, a NotCo foi criada junto com outros dois chilenos. Com apenas 26 anos de idade, o empreendedor buscou cientistas chilenos que também estudavam na Califórnia para embarcar na iniciativa: o cientista da computação Karim Pichara e o biotecnólogo Pablo Zamora. O objetivo era utilizar inteligência artificial para criar produtos à base de plantas, sem o uso de insumos animais. A NotCo começou vendendo maionese sem ovos, no Chile, em 2017, e agora chegará no Brasil com uma parceria com o Pão de Açúcar. Também lançará sorvete e “leite”, neste mesmo ano.

Os três sul-americanos estão na ponta da próxima grande disrupção que promete acontecer no mercado de alimentação, nos moldes das que estão se passando ou que já avançaram pelos setores de música, entretenimento, transportes urbanos e turismo. As chamadas foodtechs, em especial as que desejam criar alimentos sem o uso de insumos animais, prometem virar o setor de ponta cabeça e causar problemas para gigantes como Unilever, Nestlé e Kraft Heinz. As empresas tradicionais sofrem cada vez mais dificuldades para acompanhar o ritmo das inovações e atender às crescentes demandas dos consumidores por produtos melhores, mais saudáveis e de menor impacto ao meio ambiente.

“Nós comemos muito mal. Vivemos num ambiente que não só faz mal para os humanos como também para a natureza”

LogicalisNow – Como surgiu a ideia para criar a NotCo?

Matías Muchnick – Tudo começou com a curiosidade de entender porque temos o ambiente de alimentação que temos. Nós comemos muito mal. Vivemos num ambiente que não só faz mal para os humanos como também para a natureza. Hoje, a indústria de alimentos tornou-se responsável por tudo quanto é tipo de problemas ambientais: desflorestamento, uso da terra, consumo de água, tudo. Não deveria ser assim. Comer bem deveria ser sustentável e ser delicioso.

Principalmente, delicioso. Com a NotCo, descobrimos que a única forma de fazer isso é tirando o animal da equação. Usar bichos para a nossa alimentação nos gera muitas coisas ruins, inclusive para a saúde humana. As maiores causas para morte no mundo são relacionadas a doenças de alimentação. Mas estamos focando mais nos sintomas dessa má alimentação e não em preveni-los.

LN – Como isso pode mudar?

Muchnick – A nossa maior tese é que estamos alimentando os animais com plantas, para termos a nossa carne, leite, queijo e ovos. Mas, podemos cortar o intermediário e fazer diretamente esses produtos a partir das plantas. O grande desafio é como garantir que as plantas tenham gosto da comida baseada em proteína, na qual baseamos as nossas vidas pelos últimos 10 mil anos. As pessoas pensam que a composição molecular da carne é própria da carne. Mas isso não é verdade.

LN – As plantas podem reproduzir o sabor da comida de origem animal, a partir de combinações de moléculas?

Muchnick – Tentando entender esse cenário, estudei a indústria alimentícia. Sou formado em finanças. Nada a ver com comida. Mas percebi que o problema é de pesquisa e desenvolvimento. A forma como a indústria faz isso está atrasada. Com uma tecnologia de inovação antiquada. As áreas de P&D do setor funcionam com três pessoas com jalecos de laboratório trabalhando numa cozinha, buscando produtos a partir de tentativa e erro. Também percebi que a humanidade usa basicamente cerca de 15 plantas para a sua alimentação, quando o reino vegetal tem mais de 400 mil espécies. E não fazemos a mínima ideia do que cada uma delas pode nos dar.

LN – Inclusive dar gosto de carne e leite?

Muchnick – Decidimos explorar o reino vegetal para saber se existe algo que pode nos dar o sabor de queijo ou leite, sem ser o produto de fato. Mas, para fazer isso, decidimos usar inteligência artificial (IA) como forma de combinar ciência e a biologia molecular. A primeira tese da empresa era tirar o animal da equação. A segunda é usar IA. Com a tecnologia antiga, seria tão caro e levaria tanto tempo, que seria inviável.

LN – O que indicou a vocês que isso poderia dar certo?

Muchnick – Quando tive essa ideia, em 2015, ela parecia louca. Mas estava usando como referência a P&D das empresas farmacêuticas. Nesse setor, você encontra cientistas incríveis, adotando tecnologia e ciência muito profunda. Eles descobrem a molécula que pode ser sintetizada e que pode ativar proteínas do seu cérebro para ajudar na cura de certas doenças. E estudam como como essas moléculas vão interagir com o seu corpo. Para fazer isso, é necessária muita base científica.

LN – E para isso, o investimento é muito alto?

Muchnick – Muito. Mas não só isso. Há um ciclo vicioso na indústria alimentícia. Como consequência, a área de pesquisa fica sem dinheiro e não pode fazer nada de bom. Isso explica o cenário de alimentação que temos. Em certo tempo da história foi justificável termos essa indústria. Mas agora estamos frente a um grande desafio: como fazer comida gostosa e saudável. Até porque ninguém vai mudar os seus hábitos se a comida não for supergostosa.

LN – Como usar IA?

Muchnick – Primeiramente, é preciso pegar o dado certo para o computador entender. Ter os dados sobre quais partes da planta nos dá informação de sabor e textura, e então colocar tudo isso no banco de dados. A partir daí, vamos buscar o que seria similar a proteína animal. Essa forma de ter não um ser humano, mas um software, que pode nos dar uma combinação molecular, aumenta as chances de termos mais produtos, mais qualidade, melhor sabor, com preços menores e mais lucrativos.

“O grande desafio é como garantir que as plantas tenham gosto da comida baseada em proteína, com a qual estamos acostumados há 10 mil anos”

LN – E como foi o início da comercialização?

Muchnick – A prova de conceito é a maionese sem ovos, a NotMayo. Uma das coisas mais importantes do setor é conseguir o endosso de qualidade, de que o consumidor gosta e recomenda. Colocamos o produto no mercado em março de 2017, no Chile, nas unidades da rede de mercados Jumbo. Em oito meses de vendas, conseguimos 8% do mercado, o que foi inacreditável. Em especial no Chile, que é o país com o terceiro maior consumo de maionese do mundo. Usamos maionese como loucos. E a NotCo criou um produto, que, mesmo sendo baseado em plantas, se tornou mainstream. Quase 90% dos consumidores chilenos não são vegetarianos e não se preocupam com o meio ambiente, ou se o produto tem ovos ou não. Mesmo assim, conseguimos apresentar um conceito por meio do nosso produto, que fez as pessoas tirarem selfies com a NotMayo. Ela virou uma protagonista da alimentação. O que é maluco, porque é uma maionese. Ninguém costuma tirar selfies com uma maionese.

LN – E como vai o investimento para crescer o negócio?

Muchnick – Tivemos uma rodada de investimentos em dezembro de 2017 de US$ 3 milhões, com aportes da Kaszek Ventures. Depois disso, em 2018, crescemos 6 vezes de tamanho. Construímos a equipe, a estrutura, o time científico e pudemos avançar em desenvolvimento. Ficamos prontos para lançar os produtos. Por isso, fechamos a nova rodada em março deste ano, que incluiu o Jeff Bezos e a The Craftory, que tem como gestor o Elio Leoni Sceti, que é membro do conselho de administração da ABInbev. Ter ele é incrível, porque sabe tudo dessa indústria.

LN – Para que serão usados os US$ 30 milhões que receberam?

Muchnick – Recebemos pedidos de compra do Brasil, da Colômbia, dos EUA e então o momento agora é de escalar a produção, de executar. Temos muitas coisas em laboratório. Vamos usar esse dinheiro para lançar em grande escala a maionese, o leite e o sorvete. Esses produtos vão para cinco países: Chile, Argentina, Brasil, México e EUA. Temos cerca de 70 pessoas na empresa agora.

LN – fabricação será terceirizada? Se sim, como?

Muchnick – Sim. Queremos ser como a Uber. Não queremos ser os donos dos carros. Ou da fábrica, no nosso caso. Não somos experts em produção.

LN – Os EUA está avançando muito em carne artificial. Isso é bom para vocês?

Muchnick – Muita coisa está acontecendo. Na indústria de alimentos, haverá carne criada em laboratório e baseadas em plantas. A tecnologia vai permitir resolver problemas que começam grandes, mas que em dois anos ficam menores, porque as soluções aparecem. A indústria tradicional leva dois anos para fazer testes de produtos. No começo, também levamos os mesmos dois anos. Depois começamos a precisar de seis meses. Agora, levamos dois meses, ou até uma semana. Desde o início da ideia até a produção, podemos levar apenas quatro meses.