Artigo Artigo

5G e o setor industrial

Por Julio Cesar DiazEngenheiro de pré-vendas Mobility, Logicalis México

FacebookTwitterLinkedIn

Com o passar dos anos, pudemos observar uma evolução nas redes de telefonia móvel. Historicamente, as mudanças sempre foram marcadas pelos serviços oferecidos. No caso do 1G, era oferecido o serviço de voz; na evolução para 2G, apresentou-se basicamente uma melhoria do serviço de voz e o uso de mensagens de texto. No 3G, veio a introdução dos dados móveis, e começamos a testar várias coisas, como e-mails e navegação na internet, mas no fim das contas o mais importante continuava sendo o serviço de voz. Já a mudança para 4G foi radical, com a tecnologia focada primordialmente nos dados, dentre os quais podemos encontrar aplicativos, navegação em alta velocidade, mobilidade e videoconferências. Tudo isso fez com que a voz se tornasse apenas mais um dentre todos os serviços oferecidos. Contudo, como o 4G ainda não está preparado para enfrentar os desafios que aparecem com a chegada da Internet das coisas e algumas necessidades que o mercado vem observando, surge o 5G com mais uma mudança radical. Nessa evolução, já não se fala apenas de serviços de voz e dados, nem de serviços orientados a pessoas. No caso do 5G, estamos falando de serviços para máquinas, indústrias ou automóveis, o que nos leva a outra forma de enxergar o negócio, a função de uma operadora de telecomunicações e as verticais que rede 5G pode atender.

Uma das verticais com maior potencial de desenvolvimento por meio do 5G é a manufatura, que, assim como o setor de telecomunicações, passou por grandes transformações. Com o 5G e a chegada da indústria 4.0 – baseada em internet das coisas, redes, automação, dados em tempo real e aprendizagem automatizada – pode chegar uma nova revolução. A digitalização da indústria mudará o conceito que temos sobre ela, com a criação de novos casos de uso como a melhoria do “gêmeo digital”, a manutenção preditiva, a interação entre os humanos e as máquinas e os robôs. No entanto, uma das chaves para que tudo isso ocorra no futuro é a rede 5G, que cumprirá os requerimentos de latência, sincronicidade e disponibilidade, entre outros.

De acordo com o Ericsson Mobility Report de 2019, até 2023 a produção e logística de fornecimento e armazenamento serão os dois tipos de redes mais implementados entre as redes privadas de 5G para o segmento industrial. Levando em conta as projeções de uso do 5G no setor industrial, veremos que as redes estão mais concentradas em dois dos três grupos de casos de uso: mMTC (Massive Machine-Type Communications) e URLLC (Ultra-Reliable and Low-Latency Communications) que, graças aos seus benefícios para as redes 5G, mudarão fatores relevantes na indústria, como a automação de processos, automação de linhas de produção, otimização do inventário e da cadeia de fornecimento, comunicação intra e interempresarial, remote-human IoT, veículos autônomos e teleoperados.

Alguns dos casos de uso mais específicos que começaremos a ver têm a ver com realidade aumentada, para trabalhadores que fazem montagens manuais e serviços de manutenção; C2C, para conectar diversos controladores industriais; controles de movimento, para controlar partes móveis das máquinas sem fio; robôs e plataformas móveis, para realizar atividades de transporte e assistência dentro da indústria; painéis de controle móvel com funções de segurança, para apoiar a interação entre humanos, máquinas de produção e dispositivos móveis a fim de configurar, monitorar, controlar e manter máquinas, robôs, guindastes ou linhas completas de produção, e controles de circuito fechado, com sensores que realizarão medições para que um controlador tome determinadas ações.

“Uma das verticais com maior potencial de desenvolvimento por meio do 5G é a manufatura”

Para as operadoras móveis, os modelos de negócio que poderão surgir a partir dessas tecnologias são questões importantes ao falar do 5G, já que uma de suas perguntas mais frequentes é “como monetizar a rede”. As oportunidades que vão surgir são novas para as telcos. No entanto, existem vários modelos de negócio no âmbito da indústria que as operadoras móveis podem oferecer. Uma delas é a conectividade em combinação com alguns equipamentos terminais. Esse modelo parece escalável e com boas margens para as operadoras. Porém, não é aqui que reside a maior parte dos lucros projetados, mas em um modelo que ofereça um serviço completo, com conectividade, terminais, e a camada da plataforma, onde a forma de monetizar pode variar entre um pacote de serviços completos que supervisionam as operações industriais dos clientes e simplesmente uma cobrança da conectividade.

Durante o 5G Core Summit, realizado em Madri em setembro deste ano, Lise Fuhr, diretora geral da ETNO (European Telecommunications Network Operators’ Association) falou sobre essa nova revolução das redes inteligentes, e mencionou que é necessário que elas sejam observadas do ponto de vista regulatório, já que estamos criando um novo ecossistema e são necessárias instituições capazes de regulamentar o que conhecemos como IoT. Isso porque trabalharemos mais em relações industriais do que tecnológicas, e haverá muitas coisas que podem ser afetadas, como os dados e o funcionamento das redes e o ecossistema da indústria.

Para poder habilitar nossas redes 5G com todos os benefícios, as operadoras devem começar a dar forma a essa rede do futuro aos poucos, começando com uma transformação na nuvem, desenvolvendo o edge computing de várias formas, utilizando a possibilidade de network slicing de forma adequada e trabalhando nas operações em tempo real para processos autônomos dentro da rede. São muitos os fatores e pontos de falha possíveis, já que uma rede com tantas capacidades é muito complexa. Por isso, os operadores, fornecedores e integradores de serviços deverão estar alinhados com PoCs, trials e testes que ajudarão a conhecer melhor essa nova tecnologia.

Em um futuro não muito distante, algumas coisas que só existiam na nossa imaginação se tornarão realidade, como por exemplo o uso da rede de 5G em uma indústria onde um ou vários guindastes podem ser manipulados por apenas um operador ou até de forma autônoma graças a sensores e câmeras. Ou então uma fábrica na qual toda a produção acontece em um processo autônomo que utiliza inteligência artificial e sensores para evitar danos nas máquinas e fazer manutenção preditiva sem gerar perdas na linha de produção. Quem se preparar e se adaptar, verá!