"Uma aula de otimismo"

Carlos Eduardo Valim, especial para LogicalisNow

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Desde que foi criada, em 2009, a Singularity University tornou-se a grande novidade em estudos sobre inovação no Vale do Silício. Surgida das cabeças dos inventores e cientistas nova-iorquinos Peter Diamandis e Ray Kurzweil, a escola defende o otimismo com o futuro. Para ela, em poucos anos, alguns dos maiores obstáculos da humanidade desaparecerão, como o custo da energia e questões relacionadas a saúde e transportes. Atraídos por essas ideias e pelas oportunidades de negócios para quem for pioneiro, milhares de empreendedores e executivos de todo o mundo rumaram para o campus da Singularity, que fica dentro do centro de pesquisas da Nasa, na Califórnia. Mas, além de americanos, a escola de inovações atraiu principalmente os brasileiros. Como resultado, a Singularity abrirá um campus em São Paulo no início de 2020. Thomas Kriese, vice-presidente da instituição, veio a São Paulo em setembro e falou sobre como será a unidade local, além de comentar sobre os conceitos que norteiam a sua visão de futuro.

“Uma estatística do Boston Consulting Group descobriu que 72% dos brasileiros deixariam o País se tivessem os meios para isso. É um grande problema”

LogicalisNow – Por que a Singularity resolveu chegar no Brasil?

Thomas Kriese – Mais de mil brasileiros já foram para o Vale do Silício estudar na Singularity desde que começamos a operar, em 2009. Chegou ao ponto de precisarmos regular o número de brasileiros nas classes, porque, quando pedíamos feedback sobre o curso, muitos alunos diziam que gostaram do conteúdo, mas que se sentiam no Brasil.

LN – Eles chegavam a atrapalhar?

Thomas Kriese – Havia muita gente falando em português nas aulas. Os alunos esperavam mais diversidade. Foi uma grande indicação de que deveríamos trazer a Singularity para o Brasil. Mas existem outras razões para isso. Uma estatística do Boston Consulting Group descobriu que 72% dos brasileiros deixariam o País se tivessem os meios para isso.

É um grande problema, porque as pessoas que querem sair não são aquelas que estão sofrendo. São as mais preparadas, as com capacidade de ter sucesso em outros lugares. Então, queremos trazer ideias para incentivá-las a acreditar no futuro aqui no Brasil. Estamos montando uma aliança com a HSM (empresa do grupo Ânima Educação) para atuar aqui.

LN – O custo de estudar na Singularity vai ser mais baixo com as aulas em São Paulo. Afinal, os cursos na Califórnia podem custar mais de US$ 20 mil, incluindo passagens e alimentação. Isso vai atrair muito mais alunos locais?

Thomas Kriese – Acredito que cresceremos exponencialmente. Se não chegarmos a 16 mil pessoas, me perguntarei por que fizemos isso. Sabemos que, tornando o conteúdo disponível em português e criando cursos online, podemos chegar não apenas ao topo das empresas, podemos atingir a gestão média das empresas. E chegar aos empreendedores.

LN – O que atrai tanto interesse na escola?

Thomas Kriese – Nós educamos, inspiramos e engajamos líderes em tecnologias exponenciais, como inteligência artificial, biologia digital, machine learning, robótica, etc. O objetivo é resolver os maiores problemas do mundo. Nós ensinamos as pessoas a terem um pensamento exponencial, porque o ritmo de mudanças do mundo de hoje é o mais lento daqui para a frente. Conhecemos o poder da tecnologia para resolver problemas. Queremos mudar o mindset das pessoas para o futuro. Mudar uma sensação de medo para uma de oportunidades. Peter Diamandis, o fundador da Singularity, diz que se você quer ser um bilionário, resolva um problema de um bilhão de pessoas. Temos hoje a oportunidade, por meio da tecnologia e da inovação, de que empresas resolvam problemas que antes necessitavam dos recursos de uma nação. E o que exigia uma empresa de milhares de pessoas para resolver, agora pode ser realizado por algumas pessoas numa garagem. Parte do meu trabalho, o de crescer a nossa presença mundial, tem relação com ver muitas dessas inovações acontecendo pelo mundo. O Vale do Silício não tem mais a exclusividade em relação a tudo isso. O Vale pode inovar em entregar pizza por drones. Mas vejo ao redor do mundo pessoas usarem tecnologias que afetam o mundo real.

LN – Que países são rivais e disputam com o Vale do Silício a primazia na inovação? China e Israel?

TK – Muitos lugares. Não só esses dois países. Acompanhamos o que acontece na África do Sul, na União Europeia, no Canadá e na Austrália

LN – Qual é um bom exemplo de tecnologia de avanço exponencial que podem ter grande impacto?

TK – Uma das coisas que mais amo em relação ao futuro abundante que prevemos diz respeito à energia. Sabemos que a energia solar está cortando o custo por quilowatt/hora. Já chegamos a US$ 0,02 por kw/h. No Brasil, logo será menos de US$ 0,01. Então, será mais caro medir e cobrar pela energia do que gerá-la. Quando chegar a este ponto, a energia será basicamente de graça. Sabemos que os lugares com mais sol do mundo são os mais pobres. Então, se a energia for gratuita, podemos pensar como isso impactará as coisas que fazemos hoje e que usam energia de forma intensiva. Por exemplo, purificar água. Poderemos ter água limpa para todos. O impacto disso é que 50% das doenças do mundo vão desaparecer, porque são causadas por água suja. Isso não está tão longe no futuro.

Está ao nosso alcance. Certamente, isso acontecerá dentro do nosso tempo de vida. E como começarei a preparar o meu negócio para um mundo sem custo de energia? Isso é muito excitante no nosso programa. As nossas tentativas de fazer algo sempre melhorarão. Porque a primeira vez é sempre a pior. Depois vai ficando menos custoso e mais rápido.

“Acredito que cresceremos exponencialmente. Se não chegarmos a 16 mil alunos, me perguntarei por que fizemos isso.”

LN – No Brasil, quais serão as áreas de estudo?

TK – Vamos focar em oito áreas para o currículo. A HSM e a Singularity descobriram quatro áreas em que o Brasil tem grande atraso em relação aos países desenvolvidos: saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. Ao mesmo tempo, temos outras quatro áreas em que o Brasil pode liderar o mundo: agricultura, energia, meio ambiente e serviços financeiros.

LN – Como será o campus?

TK – Será um espaço de 3 mil a 5 mil metros quadrados, em São Paulo. E estamos convidando escolas de programação, de design thinking e de mindfulness para ficarem baseadas no campus. Também chamamos empresas para apoiar as áreas de estudo, além da participação de corporate ventures e de startups. Mas o trabalho não estará preso a apenas um local. O campus brasileiro fará parte de um ecossistema global.

LN – Que outros países participam dessa rede?

TK – O Brasil é o oitavo país parceiro. Além da presença no Vale do Silício, temos unidades e professores em Copenhagen, Amsterdã, Johanesburgo, Lisboa, Milão, Toronto e Sidney. A matriz na Califórnia não é o hub. É só mais um elo na rede. Isso é criticamente importante. A descentralização é o objetivo.

LN – Como a escola pode ajudar o Brasil?

TK – Quando vejo, nos EUA, imagens do Brasil, são sobre a Amazônia pegando fogo, sobre o Zika vírus, todas essas coisas negativas. Eu sei, estando aqui, que o País não é só isso. Queremos apresentar os melhores e mais brilhantes do Brasil, e mostrar as inovações, o empreendedorismo e a disrupção que está acontecendo aqui.er ele é incrível, porque sabe tudo dessa indústria.

LN – Vocês buscam o maior impacto possível no mundo. De que forma pretendem mudar as coisas?

TK – Algo que nos diferencia é que apresentamos uma visão otimista do futuro, sem nos desculpar sobre isso. Ignoramos as notícias e olhamos as tendências ao longo do tempo. Temos hoje, por exemplo, menos pessoas na linha de pobreza, ou passando fome no mundo.

LN – As pessoas, hoje, parecem muito preocupadas com o futuro. Isso tem relação com o fato de estarmos em um momento de transição dos setores e trabalhos tradicionais?

TK – Acredito que sim. Existe uma citação que aprendi no Brasil que é absolutamente brilhante. De Eduardo Galeano, o escritor uruguaio: o mundo é uma confusão, mas ele está grávido de um novo mundo que é mais justo, abundante e diversificado. Temos a responsabilidade do pré-natal dessa gravidez, para garantirmos que esse novo mundo nasça. O melhor que podemos fazer é ensinar as pessoas a ficarem confortáveis com as mudanças, porque elas só vão se acelerar. Podemos desejar que as coisas sejam diferentes, mas elas não são. O medo das pessoas de falharem e das repercussões externas de tentarem algo novo é o que faz elas ficarem presas ao status quo, ou a voltarem a um tempo em que as mudanças não eram tão rápidas. Mas acredito que as pessoas se esqueceram como o mundo era duro no passado. As tendências mostram que as coisas estão melhorando.